Criar um agente de IA segue 7 blocos: identidade (quem ele é), contexto (quem fala com ele), estilo de resposta (tom, tamanho, formato), regras (o que sempre fazer), limites (o que nunca fazer), conhecimento específico (a fonte da verdade) e exemplo de boa resposta. Esse roteiro transforma instrução vaga em agente consistente desde o primeiro uso, e você escreve tudo em português normal, sem programar.
O framework abaixo é o que o Pedro Lopes , diretor de produto da Alun Future Studio (Lumina), apresentou numa palestra da Rock in Skills com 380 pessoas online. Ele criou um agente de RH ao vivo usando esses sete blocos. Vou reconstruir o passo a passo aqui, com o mesmo exemplo, mais um meta-truque que economiza horas: um agente que revisa os seus agentes.
Antes de criar: 3 perguntas que evitam um agente que ninguém usa
Nem toda tarefa merece um agente. Antes de pensar em criar, responda três perguntas. Se as três forem sim, vale criar. Se alguma for não, provavelmente ainda não é hora.
A primeira: a tarefa aparece com frequência? Diária, semanal, mensal. Se acontece uma vez por ano, deixa pra lá. O ganho de criar um agente só compensa no repetitivo.
A segunda: o contexto é claro o suficiente pra guiar uma resposta? Quanto mais estável o cenário (uma política interna, a especificação de um produto), mais previsível o agente fica. Se tudo muda toda semana, o agente vira retrabalho.
A terceira: você teria mais consistência com um agente do que tem hoje? Esse é o sinal que mais aparece em time grande. Quando a resposta varia conforme quem responde, e o padrão de qualidade cai quando a pessoa certa está de férias, um agente resolve. Se você ainda está decidindo o que é um agente e quais tipos existem, vale começar pelo guia de agentes de IA para o trabalho .
O framework de 7 blocos
Cada bloco responde uma pergunta que a IA precisa saber pra funcionar bem. Pense em cada um como uma informação que você daria pra uma pessoa nova no primeiro dia de trabalho. Não é coincidência: a própria Anthropic, criadora do Claude, recomenda instruir o modelo como você instruiria alguém no primeiro dia, com clareza e exemplos. Vou explicar o bloco e mostrar como ele ficou no agente Sofia, o assistente de RH que o Pedro criou na palestra.
Bloco 1: identidade
Quem é o agente, pra que foi criado, qual é o objetivo. É a frase que situa tudo o que vem depois.
Na Sofia ficou assim: você se chama Sofia, assistente do Grupo Alun, especialista em políticas internas e processos do dia a dia, criada pra ajudar colaboradores a encontrar respostas práticas.
Bloco 2: contexto
Quem fala com ele, em qual situação e com qual nível de conhecimento. Isso calibra a profundidade da resposta.
Na Sofia: as pessoas que falam com você são colaboradores do grupo que precisam de uma resposta prática sobre uma política ou processo, e que normalmente não sabem em qual documento a informação mora.
Bloco 3: como ele responde
Tom, tamanho típico e formato. Sem isso, cada resposta sai de um jeito.
Na Sofia: tom acolhedor e direto, resposta completa dentro do próprio chat, sem criar documentos, com cada detalhe respondido pra pessoa não precisar abrir arquivo nenhum.
Bloco 4: regras e critérios
O que sempre fazer, e como agir diante de dúvida ou conflito. É opcional no primeiro agente, mas ajuda muito.
Na Sofia: sempre responda apenas com base nos documentos da base, sempre cite o documento de referência, e quando houver conflito entre duas fontes, priorize a mais recente.
Bloco 5: limites
O que ele não pode fazer. Esse bloco existe por um motivo específico: a IA generativa gosta de gerar. O trabalho dela é produzir a próxima palavra mais provável, então, se você não disser que ela nunca deve inventar, o padrão dela é inventar mesmo. Você precisa escrever isso de forma explícita, às vezes mais de uma vez.
Na Sofia: você não inventa informação, não usa busca na web em hipótese alguma, não aciona integrações e não cria documentos. Esse cuidado é o que separa um agente confiável de um que alucina por falta de contexto .
Bloco 6: conhecimento específico
Onde mora a fonte da verdade. São três caminhos: subir um documento, sincronizar uma pasta no Google Drive ou no Microsoft 365, ou escrever as regras direto na instrução. A dica do Pedro: se o conteúdo não for gigante, escreva ali mesmo, sem upload.
Na Sofia, ele sincronizou uma pasta inteira do Microsoft 365 com as políticas de RH e os materiais internos do grupo, incluindo conteúdos da Alura . A partir dali, o agente respondia com base só naqueles arquivos.
Bloco 7: exemplo de uma boa resposta
Uma resposta-modelo pra calibrar. É o bloco mais chato de escrever e o que mais ajuda o agente a acertar de primeira. Você mostra uma pergunta típica e exatamente como gostaria que ele respondesse. Se tiver tempo pra preencher só um bloco extra, preencha este.
Case completo: a Sofia, criada ao vivo
A Sofia já roda no Teams do grupo, respondendo dúvidas gerais de RH. Na palestra, o Pedro recriou ela do zero pra mostrar o fluxo na interface, e o passo a passo é simples.
Ele deu uma descrição curta (ajudante de dúvidas gerais do grupo), escolheu a categoria RH e deixou a opção de modelo em "a Lumina escolhe", pra não precisar entender de qual LLM usar. Depois colou a instrução montada nos sete blocos e sincronizou a pasta de políticas. Em poucos minutos a Sofia estava de pé.
O detalhe honesto veio no fim. O Pedro foi direto: parece fácil, mas eu demorei muito pra deixar a Sofia boa. O agente não fica perfeito no primeiro dia, e tudo bem. Você testa, vê onde ele errou, ajusta a instrução e roda de novo. Treinar um agente é igual treinar uma pessoa do time, ninguém faz onboarding em um dia. Em duas a três semanas, dependendo do escopo, ele fica estável.
O meta-truque: um agente que valida os seus agentes
Aqui vai o atalho que poucos conhecem. Você pode criar um agente cujo único trabalho é revisar instruções de outros agentes. O Pedro tem um. A identidade dele é mais ou menos esta: você é um validador de instruções de agentes, especialista em revisar e melhorar instruções, e quem fala com você normalmente são profissionais não técnicos, então responda de forma didática e acolhedora.
Como ele ajuda: você escreve a sua instrução nos sete blocos, joga no validador, e ele aponta os buracos. Faltou definir o limite? O bloco de contexto está vago? O exemplo de boa resposta não bate com o tom pedido? O validador devolve isso antes de o agente ir pro time.
Tem um cuidado importante, e o Pedro insiste nele: use o validador como validador, não como ghostwriter. Escreva a sua primeira versão primeiro, mesmo que tosca, e só depois passe pelo revisor. Se você deixar a IA escrever tudo do zero, perde a parte em que você de fato pensa sobre o que quer. O valor está em você fazer e ele revisar, não o contrário.
Erros comuns no primeiro agente (e a causa raiz)
Quase todo problema de agente iniciante cai em um destes cinco, e a correção é sempre voltar a um bloco que ficou fraco.
| Sintoma | Causa raiz | Correção |
|---|---|---|
| Responde igual ao ChatGPT puro | Faltou identidade e contexto (blocos 1 e 2) | Diga quem ele é e quem fala com ele |
| Inventa coisas fora do documento | Faltou o bloco de limites (bloco 5) | Escreva "nunca invente, responda só com a base" |
| Resposta curta ou longa demais | Faltou tamanho típico (bloco 3) | Defina o formato e o tamanho esperado |
| Não aciona o conector mesmo quando peço | Prompt vago, regra não setada | Seja explícito: diga quando acionar o conector |
| Não sabe quem eu sou | Personalização global vazia | Preencha quem é você, seu time e seu trabalho |
Repare que nenhuma correção é técnica. Todas são uma frase a mais na instrução. É por isso que esse trabalho não exige programação.
Template copia e cola dos 7 blocos
Salve este esqueleto e preencha os campos entre chaves. Em 30 a 60 minutos você tem a primeira versão de um agente.
[Bloco 1: Identidade]
Você se chama {{nome}}, {{papel}} do {{empresa ou time}}.
Foi criado para ajudar {{persona}} a {{objetivo}}.
[Bloco 2: Contexto]
As pessoas que falam com você normalmente são {{quem}}, que estão na
situação de {{cenário}} e querem chegar em {{resultado}}.
Elas costumam ter {{nível de conhecimento}}.
[Bloco 3: Como você responde]
Tom: {{acolhedor / direto / formal}}
Tamanho típico: {{curto / médio / completo}}
Formato: {{lista numerada / parágrafo / tabela}}
[Bloco 4: Regras e critérios]
Sempre {{ação}}.
Quando houver dúvida ou conflito, {{regra}}.
[Bloco 5: Limites]
Você não {{ação proibida 1}}.
Você não {{ação proibida 2}}.
Nunca invente informação.
[Bloco 6: Conhecimento]
Sua única fonte da verdade é {{documento / pasta / regras abaixo}}.
[Bloco 7: Exemplo de boa resposta]
Quando perguntarem "{{pergunta-modelo}}", responda "{{resposta-modelo}}". Por onde começar hoje
Você não precisa de dez agentes. Precisa de um. Escolha a tarefa do seu dia que mais se repete, passe pelas três perguntas, preencha o template e teste com duas ou três pessoas em uma semana. Ajuste o que sair torto e expanda depois.
Os agentes que você cria assim são todos reativos: respondem quando você pede. Se quiser entender quando vale o passo seguinte, vale ler reativo vs autônomo . Mas comece pequeno. A pergunta que fecha a palestra do Pedro serve de partida: qual tarefa repetitiva do seu dia poderia virar um agente?